Tenho notado que os posts que fazem mais sucesso por aqui são os de musica dos anos 80, o que me dá uma idéia mais precisa da faixa etária da distinta platéia. Mas, como a Vitrola também é cultura, vou apresentar a vocês hoje Django Reinhardt, um dos maiores guitarristas de todos os tempos, que foi um dos pioneiros do jazz na Europa e um dos primeiros músicos não negros a se sobressair nesse estilo musical.
Jean Reinhardt – depois apelidado Django – era cigano belgo/frances e até os dez anos viajava pela Europa e norte da África com sua família e a caravana de ciganos à qual pertenciam. Seu pai era violinista, e desde bem novo Django demonstrava grande habilidade com o violino, virando a estrela do espetáculo cigano liderado por seu pai.
Com 18 anos viveu uma tragédia: a caravana onde dormia pegou fogo e Django sofreu queimaduras graves, inclusive perdendo dois dedos da mão esquerda. Não podia mais tocar violino e como terapia começou a dedilhar o violão. Dois anos depois já havia desenvolvido uma técnica própria adaptada para a sua deficiência e não parou mais de tocar. Sua guitarra adaptada era uma Macaferri Sinier e com ela fazia improvisações espetaculares.
Em 1934 formou o Quinteto Hot Club de France, do qual também fazia parte outro virtuose, o violinista Stéphane Grapelli. O quinteto era formado por cinco instrumentos acústicos de corda - três guitarras, um violino e um baixo, mas soava como se tivesse sopros e uma seção percussiva, comuns nos grupos de jazz americanos. Os protagonistas eram Reinhardt e Grapelli, os outros eram meros coadjuvantes, se bem que no principio o irmão de Django, Johan, tambem cantava.
O som encorpado com os solos do violão e do violino eram uma absoluta novidade e sua fama começou a correr o mundo. Músicos que visitavam a França faziam questão de conhece-los, como Coleman Hawkins, Louis Armstrong e Benny Carter, que com eles gravaram algumas musicas. Reinhardt era um intuitivo e não sabia ler partituras, dizem inclusive que era analfabeto, mas sua genialidade superava tudo isso e seu estilo revolucionou o meio musical da época. Foi a partir do seu grupo que o violão deixou a seção ritmica que apenas acompanhava e veio pra frente da banda, fazendo os solos e guiando os outros instrumentos. E ele tocava com apenas dois dedos da mão esquerda!
Quando começou a Segunda Guerra Mundial o quinteto estava excursionando pela Inglaterra, mas voltou imediatamente para a França, o que permitiu que Django sobrevivesse ileso à perseguição nazista contra os ciganos. Com o fim da guerra, o quinteto excursionou pelos Estados Unidos abrindo os shows da orquestra de Duke Ellington e gravou muitos discos, lançando seu estilo, definitivamente, para o resto do mundo.
Django Reinhard deixou o violão de lado em 1951, cansado dos aborrecimentos que cercavam a comercialização de sua música e com dificuldades de se adaptar à vida moderna, e se voltou inteiramente para a vida cigana. Passou o resto de seus dias no interior da França, pescando e pintando. Morreu em 1953, de um derrame fulminante.
Em 1999 Woody Allen lhe prestou uma homenagem no filme Poucas e Boas (Sweet and Lowdown), onde o personagem de Sean Penn venera Django Reinhardt, mas cuja existência o relega para sempre ao papel de segundo melhor guitarrista do mundo.
Na internet tem um site muito interessante sobre ele, http://www.about-django.com, onde podemos ver vídeos sobre as apresentações do quinteto nas décadas de 30 e 40 e até sete exercícios de técnica para quem quiser tocar do mesmo jeito que ele.
As músicas abaixo são do disco Are You in The Mood?, de 1981, que trás o Quinteto do Hot Clube de France em seus melhores momentos, em gravações dos anos 30 e 40.