Sempre tive uma atração irresistível pela musica das tribos nômades do deserto do Saara, mas não tinha muito acesso a nada que vinha deles. Pois agora conheci e adorei os Tinariwen , tuaregs da fronteira do Mali com a Líbia, que faz um som muito politizado e de ótima qualidade.
A historia deles é surpreendente. Em 1979 se conheceram num campo de treinamento militar, onde lutavam sob a ordem do general Kadhafi, da Líbia. O líder libio recrutou os tuaregs, povo sem terra do deserto, com a promessa de lhe dar armas e treiná-los em sua luta por independência do governo do Mali. Mas depois, segundo eles, Kadhafi os enganou.
Então os tuaregs se mudaram para um campo de refugiados onde vivem ate hoje e dez deles, sob a liderança do músico Ibrahim Ag Alhabib, criaram o Tinariwen, cuja tradução quer dizer alguma coisa como “imensidão deserta”. Suas primeiras composições funcionaram como propaganda política dos rebeldes e só em 2001 os Tinariwen ganharam identidade artística com a edição de seu primeiro disco, The Radio Tisdas Sessions e surpreenderam o mundo em 2004 com o segundo, Amassakoul , rapidamente no topo das paradas de alguns paises da Europa e Africa.
Seu som é o das tradições tuaregs, com vozes guturais de homens e mulheres que parecem vir de outro planeta, mas tem também fortes influencias de Bob Marley e Bob Dylan, algumas pitadas de blues, de psicodelismo e de acid drock e uma guitarrinha espertíssima tocada por Ag Alhabib, em contraponto a baixo, bateria e instrumentos tradicionais do deserto. Cantam em dialeto e algumas musicas em francês. Não entendo nada que eles dizem, mas adoro o som.
Hoje eles são a voz do povo tuareg para o resto do mundo, com mensagens de resistência à repressão, à prisão e outros problemas enfrentados pelos povos do deserto. Seus discos são banidos do Mali e da Argélia.