O Velvet Underground era uma banda diferente naqueles agitados anos 60. Enquanto a musica jovem do resto do mundo falava de paz e amor, psicodelismo e experimentações, eles cantavam sobre drogas, chicotes e prostituição. Era a cara de Nova Iorque, uma ilha naquela época de guerra do Vietnam, hippies, amor livre e LSD.
A banda tocava em bares restritos e encantou o papa do underground nova-iorquino Andy Wahrol , que decidiu bancar seu primeiro disco. Andy agitava a cidade a partir da sua Factory, um galpão por onde passavam todos os tipos excêntricos e artistas de Nova Iorque e que abrigava shows multimídia e performances inusitadas. Entre os freqüentadores da Factory estava Nico, uma modelo alemã alta e imponente, com fama de ser fria como o gelo, que tinha feita um pequeno papel no filme La Dolce Vita, de Fellini. Ela era a pop star de Wahrol, que adorava sua voz cavernosa e por isso impôs a sua entrada na banda como condição para gravar o disco. A banda esperneou, mas acabou aceitando. O Velvet Underground & Nico ficou então com a seguinte formação:
Lou Reed – que compunha a maioria das músicas, na voz e na guitarra solo
Sterling Morrison – na guitarra
John Cale – no baixo
Maureen Tucker – uma garota cheia de atitude, na bateria.
Nico – também na voz
O disco foi gravado em dois dias, em 1967, num estúdio caindo aos pedaços, bancado por Andy e um amigo, executivo de gravadora. Depois de pronto, o disco precisava de uma capa – e Andy, já um dos grandes artistas plásticos de sua época, criou uma banana já meio passada num fundo branco, que podia ser descascada e revelar o seu interior. E que hoje é um ícone de modernidade e cultura pop.
Tenho esse LP original, me lembro da excitação que causava a todas nós adolescentes seguir as instruções que vinham escritas em letras miudinhas, quase despercebidas, na lateral da banana: “descasque devagar e você verá’... E a gente abria a casca (ao longo de uma linha perfurada que precisou de uma cortadora especial na gráfica para ser executada) e dentro aparecia outra banana, só que cor de rosa, frágil e sensual. Foi uma sensação absoluta, pelo menos para alguns... e algumas...
Para lançar o disco, Andy Wahrol criou um espetáculo musical-teatral, que incluía dançarinos, luzes, projeção de filmes e outras psicodelias. O espetáculo ganhou o nome de ‘The Exploding Plastic Inevitable’ e se apresentou em vários estados americanos e na Europa, sempre deixando um rastro de êxtase e espanto por onde passava. Mas o disco vendeu quase nada – talvez o mundo não estivesse preparado para recebê-lo.
A banda se separou em 1969, depois de mais três discos. Lou Reed seguiu brilhante carreira solo; Nico morreu do coração na Espanha em 88, justo quando tinha largado as drogas; e os outros músicos sumiram no anonimato.
The Velvet Underground praticamente criou uma cultura para o rock ‘n’ roll, tornando-se referência para todas as bandas que viriam nos anos seguintes. Muita coisa que se escuta hoje jamais teria existido se a Velvet não tivesse existido antes.