Esse é o primeiro disco solo do cantor carioca e um dos trabalhos mais inusitados da música brasileira. Não dá para defini-lo: é rock, é samba, é erudito, mas também é jazz, bossa nova, tropicalismo, tudo isso junto e paradoxalmente nenhuma dessas coisas. É o mais puro Jards Macalé. O clima do disco é meio down, melancólico, cheio de sofrida poesia – uma memória fiel da época em que foi gravado, em 1972, em plena ditadura militar.
Conta Wally Salomão, parceiro de Macalé no disco: “Começamos a trabalhar exatamente naquele período que marcava um vazio depois do AI-5, depois de tudo o que foi o tropicalismo em 1968 e que foi cortado violentamente no final daquele ano. O pessoal no exílio, Macalé tinha que ser a voz que continuasse cantando e mantivesse acesa a chama. Nessa época escrevi e Macalé musicou Vapor Barato, dizendo o que era possível naquele momento de desencanto: "Oh, sim, eu estou tão cansado, / Mas não pra dizer / Que eu não acredito mais em você". Vapor Barato foi gravada por Gal Costa no LP Fa-Tal, Gal a Todo Vapor e todo mundo sabia tocá-la no violão. Parecia o hino de um pobre woodstock caboclo."
O LP foi gravado às pressas e de maneira simples – somente com ele no violão, o guitar hero Lanny Gordin no baixo e Tutty Moreno na bateria. A capa trazia um encarte obra prima do design. A censura marcou em cima, os milicos ficavam encucados com as letras de Torquato Neto, especialmente a de Revendo Amigos, que dizia “se me der na veneta eu morro / se me der na veneta eu mato”. Essa letra foi revista pela censura nada menos que 12 vezes...
Quando saiu, considerado um dos melhores do ano pela crítica, Jards Macalé logo virou preciosidade, porque foi retirado de catálogo. Saiu em CD há alguns anos, mas não existe mais, virou cult.
São nove faixas e uma vinheta, todas com musica de Macalé e letras de Capinan, Wally Salomão, Luis Melodia e Torquato Neto. Nele predomina um clima triste, onde passam blues, samba-canção, rock e mesmo algo de bolero. Macalé canta seccionando as palavras, o que dá às letras um sentido totalmente inusitado.
Diz ele: “é o disco que mais gosto. Apesar dos poucos musicos, a gente conseguir fazer cada faixa diferente da outra, criando um unidade incrível."
Os parceiros desse disco continuaram com ele nos discos seguinte, menos o piauiense Torquato Neto – grande poeta da melancolia – que suicidou-se naquele mesmo ano, um dia depois de completar 28 anos.
Jards Macalé é um disco obrigatório que soa revolucionário ainda hoje. Espero que gostem.