No verão de 1980, Gilberto Gil se apresentou em algumas cidades brasileiras num show memorável com o jamaicano Jimmy Cliff e todo mundo prestou atenção num jovem clarinetista negro que tocava na banda e que fazia um solo de impacto lá pelo fim do show. Ele chamava atenção não só porque tocava e cantava muito bem – mas principalmente porque era belíssimo: um negro alto e magro, na flor dos seus 20 anos, com um carisma irresistível. Vestia-se de maneira diferente, com suspensórios, calças listradas e sapatos bicolores, cheio de estilo. Era Roberto Guima. Ele foi a sensação no meio musical no verão de 1980.
Quem freqüentava as gafieiras cariocas, no entanto, já conhecia Guima de pelo menos dois anos antes. Ele costumava tocar no meio da noite, no palquinho da Estudantina, para onde foi levado por Paulo Moura, seu professor e admirador. Já era extremamente fashion – sempre de terno de linho beje, camisa branca, gravata borboleta, às vezes usava um chapeuzinho. E sempre tinha um lenço vermelho amarrado no pulso, de puro charme. Era lindo mesmo, o Guima, a gente parava de dançar só pra vê-lo no palco. E tocava o clarinete de uma forma pessoal, o som saia sinuoso e de fraseado sofisticado, diferente de tudo o que a gente já tinha ouvido. Diretamente da linhagem negra de Coltrane + Paulo Moura, com pitadas de Tim Maia.
Ficamos amigos, descobrimos que ele era um menino doce e sincero, que tinha muitas músicas compostas e estava louquinho pra gravar um disco só dele. Na época Guima era muito solicitado pelos outros músicos, tocava em gravações de discos, em excursões de shows, todo mundo se encantava com seu jeito novo de solar o clarinete.
Em fins de 1980, muita gente se mobilizou e Roberto Guima gravou o disco, que levava seu nome, com um repertório de composições próprias. Grandes nomes da musica instrumental participaram das gravações, só por admiração a Guima: Paulo Moura, Celso Fonseca, Marçal, Leo Gandelman, Marcio Montarroyos, Serginho Trombone, Wilson Meirelles, Jorginho do Pandeiro, João de Aquino, veja só que time ele reuniu.
Em março de 81, um choque para todos os seus amigos e admiradores: Guima foi passar o final de semana em Arraial do Cabo e morreu afogado, logo ele, dono de um fôlego de sete gatos. Tinha 21 anos. Passou por aqui como um cometa de brilhante trajetória e deixou muitas saudades.
Seu lindo disco, raríssimo, está aí embaixo. Deveria ser re-editado, porque é um trabalho da mais alta qualidade. Dedico essa postagem a Marco Ramos, que também era fã do Guima.