O maestro Moacir Santos, pernambucano e cidadão do mundo, faz 80 anos esse mês. As novas gerações não o conhecem, mas os mais antenados sabem que poucos músicos exerceram uma influência tão marcante na música brasileira quanto ele.
Moacir nasceu no sertão pernambucano, ficou órfão de pai e mãe muito cedo, perambulou por vários estados nordestinos procurando aprender o que podia de musica, até parar na Radio Nacional do Rio, com 18 anos. E subiu muito rápido. Dividiu a regência da emissora com Radamés Gnatalli e foi o primeiro maestro negro das rádios brasileiras. A partir daí fez música para TV, rádio, cinema, teatro, culminando sua carreira no Brasil com a gravação do seminal Coisas.
Em 1967, mudou-se para os Estados Unidos, onde vive ate hoje e trabalhou inicialmente em trilhas sonoras. Foi assistente do compositor Henry Mancini (de onde surgiu o boato de que seria de Moacir Santos o tema de A pantera cor-de-rosa). Tocou e gravou com alguns dos maiores nomes do jazz e lançou, com a participação de muitos deles, quatro discos nos EUA (todos inéditos no Brasil).
Aqui o seu trabalho permaneceria apenas cult, se não fosse o empenho de dois admiradores, o violonista Mario Adnet e o saxofonista Zé Nogueira, que concluíram em fins do ano passado o resgate da obra do maestro, com o lançamento dos CDs Choro & Alegria, Coisas e o duplo Ouro Negro, recriação de todas as suas partituras, que virou um show lindo, com a presença do autor, e um DVD.
Ouro Negro é um disco espetacular, mas Coisas é o produto original, com Moacir em pessoa tocando seu possante sax barítono. È uma obra-prima de música instrumental, um marco divisório na MPB, que permaneceu inacreditáveis 39 anos fora de catálogo. São dez faixas intituladas simplesmente Coisas (numeradas de 1 a 10, mas fora de ordem), feitas há 40 anos, que se mantém atuais como se tivessem sido compostas hoje. Eu me emociono a cada vez que escuto.
Hoje Moacir Santos não pode mais tocar, teve um AVC e os movimentos do lado esquerdo comprometidos, mas continua compondo e fazendo arranjos como há 40 anos. Deixo vocês com seis de suas maravilhosas Coisas, do disco de 1967, remasterizado digitalmente por Adnet e Nogueira. Esse é dos biscoitos mais finos que já servi aqui, hein??